“Sabedoria é fazer aquilo que você deseja e não se corromper por nada”: a frase foi dita por Amir Haddad durante o Festival de Curitiba, em 2017, mas poderia resumir bem a trajetória artística de Daniel Ávila, ator que integra o grupo de teatro Tá Na Rua, encabeçado pelo icônico diretor.
O mesmo Daniel, que, hoje, desfila sua arte por ruas da capital carioca, também tem lugar cativo na memória afetiva do público brasileiro. Foi ele que, há 31 anos, emprestou sua precoce genialidade ao Dudu, personagem que pode ser revisto na reprise de “A Viagem”, exibida na sessão “Vale a Pena Ver de Novo” na TV Globo.
O folhetim, criado e escrito por Ivani Ribeiro com direção de Wolf Maia, é reprisado pela terceira vez na Globo; a última exibição ocorreu há 11 anos, tempos em que as redes sociais ainda engatinhavam quando o assunto era a convergência com a TV aberta.
Nesta entrevista ao Purepeople, Daniel fala com empolgação de Dudu e celebra o reconhecimento do personagem, que se prova atemporal com o carinho das novas gerações.
“Tem uma novidade boa do Dudu, que ele virou meme agora. Tem as coisas novas da internet, essa brincadeira de ‘Dudu pra presidente’, ‘sou mais o Dudu que o Alexandre’. O engraçado é que revisita um público muito mais velho do que eu, os adultos que me assistiam vêm falar comigo, a criançada da época, que hoje em dia tem minha idade. E as novas crianças, que acabam olhando para o Dudu e admirando e se reconhecendo”, comemora.
Daniel tinha apenas 9 anos na época de “A Viagem”. O ator prodígio já acumulava trabalhos na Rede Manchete antes de chegar à vênus platinada. Questionado se houve preparação para atuar em uma novela sobre a doutrina espírita, ele nega e menciona, com bom humor, o contexto da década.
“Você esquece que eu sou cria dos anos 1990? ‘Joga na água e vê se sabe nadar’. Eu fui tacado ali no meio de todo mundo. E não tô reclamando, não! Assim eu aprendi, assim estou aqui”, dispara o artista. “Meus pais tinham certa consciência, minha família sempre esteve presente comigo, isso é sempre maravilhoso. Mas não teve preparação nenhuma.”
Em compensação, Daniel teve um workshop de luxo com a troca e o acolhimento dos atores veteranos com quem dividiu cena. Antônio Fagundes, Denise Del Vecchio e Cláudio Cavalcanti são alguns dos nomes que ele menciona com muita gratidão.
“Os atores antigos, amorosos, com ancestralidade, com jeito de mestre, professor, tinham dentro deles uma responsabilidade com quem estava chegando. Eles ensinavam, perguntavam coisas, davam dicas, me apontavam assuntos”, relembra.
No começo da vida adulta, Daniel se formou Bacharel em Cinema e fez diversos cursos profissionalizantes, entre eles, na Escuela Internacional de Cine y Televisión (EICTV), renomada escola de televisão e cinema de Cuba, fundada nos anos 1980 pelo cineasta Fernando Birri.
Nesta altura, Daniel já colecionava papeis de sucesso na televisão, como o Adriano de “Floribella”, fenômeno infantojuvenil da Band que completou 20 anos em 2025, o Tony de “O Profeta” e o Beto, protagonista de “Amigas e Rivais”, no SBT. Mesmo com o sucesso no mainstream, ainda faltava algo para que o intérprete se sentisse completo em seu ofício: o encontro com a ancestralidade.
“Comecei a me dar conta que eu tinha que entender um pouco mais da minha profissão. Eu fiz uma novela atrás da outra, já fazia protagonista, mas eu ainda não tinha entendido direito para o que servia minha função, minha profissão. Foi nesse pensamento de ter um mestre, de aprender um pouco mais, que encontrei o Amir.”
Lenda das artes cênicas no Brasil, Amir foi um dos fundadores do Teatro Oficina, ao lado de José Celso Martinez Corrêa e Renato Borghi. Nos anos 1980, criou o Tá Na Rua, a principal referência de teatro de rua no Brasil.
Letícia Spiller foi a responsável por fazer esta ponte em 2008. Na época, ela era protagonista de “Bodas de Sangue”, peça dirigida por Amir. 17 anos depois, Daniel é o ator mais antigo em atividade na trupe. “Não sei se isso tem algum lugar valor, além da dor nas costas que eu carrego”, brinca.
Sem roteiro, o improviso reina e as intervenções do público são essenciais para a construção dos espetáculos, encenados, como o nome sugere, no meio da rua. A Lapa, tradicional bairro boêmio da capital carioca, é o principal cenário.
“Quando a gente vai para a rua, a gente não tem um texto, não tem uma edificação e não tem um personagem direito a seguir. A gente tem nossa linguagem e improvisa com as coisas que acontecem na rua. O cidadão entra também na nossa roda. A gente tem os nossos clientes, que são as pessoas em situação de rua, que são ignoradas, invisibilizadas. A gente tem todo um trabalho que pensa em agregar essas pessoas, em partilhar com elas esses movimentos”, explica Daniel.
Aliás, foi com pessoas em situação de rua que Daniel viveu algumas situações inusitadas que nenhum roteiro poderia prever. “Eu já acordei com uma pessoa em situação de rua chorando no meu peito e beijando a minha boca”, recorda.
Entre as histórias que o ator se lembra com orgulho, estão imprevistos com chuva e até tentativas de prisão na época do “choque de ordem”. No início da década passada, as atividades do Tá Na Rua foram afetadas por ações de fiscalização e ordenamento urbano impostas pela Prefeitura do Rio de Janeiro, muito criticadas pelo caráter autoritário e por punir, em maioria, trabalhadores informais e moradores das zonas periféricas.
São estas memórias de luta e resistência que ajudaram Daniel a, enfim, mergulhar no que há de mais preciso em seu ofício. “Compreendi muito mais minha função. Não sou um ator de aqui, agora, eu sou um ator de todos os tempos. Passado, presente, futuro. Sou um projetor social. As informações, as histórias passam por mim, eu sou um grande contador de histórias. A alegria do outro me vendo em cena me faz feliz. É uma relação, às vezes, espacial”, reflete.
Daniel não faz trabalhos na televisão desde 2014, mas refuta o clichê de que “se afastou da TV”. “Eu comecei a minha obra em cima da TV porque foi o que me apareceu. Depois eu fiz teatro, cinema, tô no teatro de rua. Eu não me afastei de lugar nenhum, eu só aumentei”, justifica.
Daniel concilia o grupo de teatro com o trabalho como dublador, função que também desempenha desde a infância. Ele eternizou sua voz em séries internacionais famosas, como “Game of Thrones”, “Narcos” e “American Horror Story”, além de dublar o Peter Pan no clássico “De Volta à Terra do Nunca”. Atualmente, ministra oficinas de dublagem online ou presencialmente.
Quando o assunto é televisão, Daniel faz críticas ao atual momento das novelas e do casting da Globo. “Pra mim, tá muito difícil assistir”, ele confessa. “Os atores não são mais os mesmos de antigamente, eles têm muito medo de serem cancelados, de enfiar o pé na jaca. Estão fazendo uns remakes tão meia-boca, sabe novela com filtro de Instagram?”.
Ele, no entanto, não descarta retornar aos folhetins, caso receba a oferta de um bom personagem. “Se ela [a TV] estiver interessada em qualidade, em bons produtos, em atores que queiram alguma coisa e estão com vontade de aprender, eu tô aí. Estarei sempre aí”, brada.
Com experiência em diversas vertentes da arte, Daniel se deleita com a nostalgia do público saudoso da televisão, mas prefere não ser resumido por essa trajetória. A relação, por vezes, injusta entre empresa e funcionário ajuda a justificar o sentimento agridoce de um artista que teve portas abertas pela TV, mas encontrou seu chão nas ruas.
“Minha história não começa na Globo, não terminou com a Globo e jamais ficará presa a qualquer tipo de emissora. Eu fiz bastante coisa em várias emissoras, inclusive, nunca fui contratado de nenhuma emissora. Tem gente acha que eu fiquei anos na Globo. Não, a Globo nunca quis me pagar um salário decente, contínuo pra eu me especializar. Nenhuma delas me deu guarida pra nada. Elas realmente só se utilizaram do meu trabalho e foi uma troca comercial. Eu que fui buscar meu conhecimento, minha educação, minha saúde mental.”